Mais um domingo de missa. Mais uma chance de ganhar uns trocados a mais. Jã acostumado com aquele "ponto", a mesma escadaria de fora da igrejinha. Colocou a mesma lata de sempre , muito amassada e começou a pedir.
- Uma esmola, pelo amor de Deus! Um esmola, em nome de Jesus!
Boa parte das pessoas se comovia com aquela situação. Assim, o mendigo ganhava o seu pão, para os momentos de fome, e ganhava a sua cachaça, para os momentos de solidão. Não havia nada de especial naquele mendigo. Sujo e paupérrimo como tantos outros, viera de longe , acreditando nas promessas de um futuro melhor. Como tantos outros, também, descobriu que as promessas não passavam de nada além disso, promessas. Tentou pedir dinheiro para voltar para casa, mas não recebia crédito algum. As pessoas não tinham como saber que entre tantos mentirosos, aquele pobre homem falava a verdade. Deste ponto até o começo desta narrativa, foram precisos muitos goles de cachaça. Havia algo de especial naquele dia. O dia em que o mendigo decidiu parar de beber e guardar parte do que recebia nas mendincâncias para voltar ao seu verdadeiro lar. Assim, cada domingo tornou-se um dia de expectativas. E de grão em grão, ele conseguiu juntar todo o dinheiro. Logo após o grande feito, fez o que normalmente os mendigos não fazem: entrou na igreja para agradecer por toda a bondade de Deus. - O que um mendigo faz aqui no meio de todos? - Murmurou alguém. - Deve vir pedir esmola junto com a coleta do dízimo. Mas que audácia! - Retrucou, baixinho um outro alguém. - Alguém deveria chamar a polícia! Este é um lugar sagrado, não um lugar para um mendigo pedir esmolas. Onde já se viu uma coisa dessas? - Comentou uma terceira pessoa, começando uma chuva de julgamentos em vozes baixas. O mendigo caminhou até o meio da igreja e escolheu uma fileira de bancos com um lugar vazio. Não que importasse se aquele lugar estava vazio ou não, pois logo após a escolha, todos os outros ocupantes mudaram de posição, ocupando outros lugares. O mendigo apreciou as figuras celestiais e pôs-se a ouvir o sermão do padre. O padre separara um dos seus sermões favoritos para aquele dia: O que tratava sobre a importância da gentileza, do poder do amor e do respeito que os seres humanos, irmãos sob os olhares da santíssima trinidade, deveriam ter uns pelos outros. As pessoas não ligaram para o sermão daquele dia. O mendigo atraía uma atenção muito maior. O mendigo é uma pessoa como tantas outras. Tem sus angústias. Tem seus medos. Tem seu orgulho. Assim, terminou de rezar e se dirigiu novamente para o meio da igreja. O silêncio invadiu o local e assim, todos, inclusive o padre, esperaram o próximo passo do mendigo. Num giro, observou todos os que o observavam e notou que a regra dos homens é muito diferente das regras de Deus. Levantou o dedo, fechou os olhos e disse:
- Seja feita a vossa vontade! Amém...
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