quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Carta de um morador de Itajaí

Para aqueles que ainda acham que podem viver sozinhos e que se acham o centro do mundo, acredito que não lerão até o final... Carta de um morador de Itajaí e vítima da enchente. Meus amigos, Hoje 27 de novembro de 2008 o sol saiu e conseguimos voltar a trabalhar. A despeito de brincadeiras e comentários espirituosos normais sobre esta"folga forçada" a verdade é que nunca me senti tão feliz de voltar ao trabalho. Não somente pelo trabalho, pela instituição e pela própriatranqüilidade de ter aonde ganhar o pão, mas também por ser um sinal de quea vida está voltando ao normal aqui na nossa Itajaí.As fotos que circulam na internet e os telejornais já nos dão as imagensclaras de tudo que aconteceu então não vou me estender narrando edescrevendo as cenas vistas nestes dias. Todos vocês já sabem de cor. Euquero mesmo é falar sobre lições aprendidas. Por mais que teorias e leituras mil nos falem sobre isso ainda ésurpreendente presenciar como uma tragédia desse porte pode fazer aflorarno ser humano os sentimentos mais nobres e os seus instintos maisprimitivos. As cenas e situações vividas neste final de semana prolongadoem Itajaí nos fizeram chorar de alegria, raiva, tristeza e impotência.Fizeram-nos perder a fé no ser humano num segundo, para recupera-la noseguinte. Fez-nos ver que sempre alguém se aproveitará da desgraça alheia,mas que também é mais fácil começar de novo quando todos se dão as mãos. Que aquela entidade superior que cada um acredita (Deus, Alá, Buda, GADUetc.) e da forma que cada um a concebe tenha piedade daqueles: - Que se aproveitaram a situação para fazer saques em Supermercados,levando principalmente bebidas e cigarros- Que saquearam uma farmácia levando medicamentos controlados, equipamentose cofres e destruindo os produtos de primeira necessidade que ficaram assimcomo a estrutura física da mesma.- Que pediam 5 reais por um litro de água mineral.- Que chegaram a pedir 150 reais por um botijão de gás.- Que foram pedir donativos de água e alimentos nas áreas secas pra vendernas áreas alagadas.- Que foram comer e pegar roupas nos centros de triagem mesmo não tendosuas casas atingidas..- Que esperaram as pessoas saírem das suas casas para roubarem o querestava.- Que fizeram pessoas dormir em telhados e lajes com frio e fome para nãoter suas casas saqueadas.- Que não sentiram preocupação por ninguém, algo está errado em seucoração.- Que simplesmente fizeram de conta que nada acontecia, por estarem emáreas secas. Da mesma forma, que essa mesma entidade superior abençoe: - Aqueles que atenderam ao chamado das rádios e se apresentaram no domingono quartel dos bombeiros para ajudar de qualquer forma.- Os bombeiros que tiveram paciência com a gente no quartel para nosinstruir e nos orientar nas atividades que devíamos desenvolver.- A turma das lanchas, os donos das lanchinhas de pescarias de fim desemana que rapidamente trouxeram seus barquinhos nas suas carretas efizeram tanta diferença.- À equipe da lancha, gente sensacional que parecia que nos conhecíamos detoda uma vida.- Aos soldados do exército do Paraná e do Rio Grande do Sul.- Aos bravos gaúchos, tantas vezes vitimas de nossas brincadeiras quetrouxeram caminhões e caminhões de mantimentos.- Aos cadetes da Academia da Polícia Militar que ainda em formação seportaram com veteranos.- Aos Bombeiros e Policias locais que resgataram, cuidaram , orientaram eauxiliaram de todas as formas, muitas vezes com as suas próprias casasembaixo das águas.- Aos Médicos Voluntários.- Às enfermeiras Voluntárias.- Aos bombeiros do Paraná que trabalharam ombro a ombro com os nossos.- Aos Helicópteros da Aeronáutica e Exercito que fizeram os resgates noslocais de difícil acesso.- Aos incansáveis do SAMU e das ambulâncias em geral, que não tiveram temponem pra respirar.- Ao pessoal do Helicóptero da Polícia Militar de São Paulo, que mostrouque longo é o braço da solidariedade.- Ao pessoal das rádios que manteve a população informada e manteve aesperança de quem estava isolado em casa.- Aos estudantes que emprestaram seus físicos para carregar e descarregarcaminhões nos centros de triagem.- Às pessoas que cozinharam para milhares de estranhos.- Ao empresário que não se identificou e entregou mais de mil marmitex nocentro de triagem.- A todos que doaram nem que seja uma peça de roupa.- A todos que serviram nem que seja um copo de água a quem precisou.- A todos que oraram por todos.- Ao Brasil todo, que chorou nossos mortos e nossas perdas.- Aos novos amigos que fiz no centro de triagem, na segunda-feira.- A todos aqueles que me ligaram preocupados com a gente.- A todos aqueles que ainda se preocupam por alguém.- A todos aqueles que fizeram algo, mas eu não soube ou esqueci.
COMEÇAR DE NOVO
Eu tinha medo da escuridão. Até que as noites se fizeram longas e sem luz.Eu não resistia ao frio facilmente;Até passar a noite molhado numa laje;Eu tinha medo dos mortos;Até ter que dormir num cemitério;Eu tinha rejeição por quem não era de minha cidade.Até que me deram abrigo e alimento.Eu tinha aversão a Judeus;Até darem remédios aos meus filhos;Eu adorava exibir a minha nova jaqueta;Até dar ela a um garoto com hipotermia;Eu escolhia cuidadosamente a minha comida;Até que tive fome;Eu desconfiava da pele escura;Até que um braço forte me tirou da água;Eu achava que tinha visto muita coisa;Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas;Eu não gostava do cachorro do meu vizinho;Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar;Eu não lembrava os idosos;Até participar dos resgates;Eu não sabia cozinhar;Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome;Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras;Até ver todas cobertas pelas águas;Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome;Até a gente se tornar todos seres anônimos;Eu não ouvia rádio;Até ser ela que manteve a minha energia;Eu criticava a bagunça dos estudantes;Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias;Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos;Agora nem tanto;Eu vivia numa comunidade com uma classe política;Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora;Eu não lembrava o nome de todos os estados;Agora guardo cada um no coração;Eu não tinha boa memória;Talvez por isso eu não lembre de todo mundo;Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos;Eu não te conhecia;Agora você é meu irmão;Tínhamos um rio;Agora somos parte dele. É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio;Graças a Deus;Vamos começar de novo. Anônimo É hora de recomeçar, e talvez seja hora de recomeçar não só materialmente.Talvez seja uma boa oportunidade de renascer, de se reinventar e de crescercomo ser humano.Pelo menos é a minha hora, acredito. Que Deus abençoe a todos.