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São paulo, Centro da cidade, domingo de inverno. Entardecer. Frio e chuva. Paramos a viatura em frente à casa e os dois vieram na nossa direção, correndo. Correndo não, se empurrando.- Foi ela!- Foi ele!- Calma, gente. Precisamos saber o que aconteceu.- Ela me agrediu!- Ele me agrediu primeiro!- Ela!- Ele! Ele!Precisamos pedir calma com menos calma de nossa parte.- Quem sabe fala um de cada vez?- Ela não tem que falar nada. Eu é que sou a vítima.- Eu!- Eu! Eu!- Ah, é? Vou contar, então, o que ele me fez.- Eles não querem saber!- Senhor, queremos saber as duas versões.- Pra quê?- É. Pra quê?- Isenção no procedimento. É a praxe.- Rá! Vocês estão sempre do lado da mulher! Taí a Maria da Penha e o escambau. Só pra elas!- Que nada! Puxam sempre pro lado dos homens e fazem vista grossa, que eu sei!- Senhora, somos policiais, não tomamos partido e...- Duvido! Quem vocês vão ouvir primeiro, então?- É. Quem? Quem?- Qual dos dois solicitou a nossa presença?- Eu!- Mentira. Fui eu!- Quem é Jô?- Jô?- Pelo rádio informaram ser Jô a pessoa que nos chamou. Não sabemos se é homem ou mulher.Os dois se olharam.- Jô é a vizinha!- Mas que cretina! O que ela tem que se meter na nossa vida?- Inaceitável! A polícia sendo manipulada por uma vizinha bisbilhoteira!- Vou registrar contra ela, ah se vou!- Pessoal, já que vocês estão insatisfeitos, quem sabe vamos todos para a delegacia?- Ai, meu Deus! Delegacia?- Opa! Vocês não vão levar a minha mulher pra delegacia!- Também não vou deixar que levem você, momor!- Me abraça, vai.Abraçaram-se. Beijaram-se.- Por que vocês não vão prender bandidos em vez de ficar empatando a nossa vida, hein?- Vem, momozão. Vou fazer chocolate quente pra nós.Foram mesmo. Bateram a porta na nossa cara. Silêncio total. E mais frio. E mais chuva. A vizinha, que nos chamou, nem apareceu para dizer boa-noite.
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